Por trás da Eucaristia

Única fábrica de hóstias do Nordeste é 100% feminina e funciona na Bahia

O mistério da eucaristia tem como princípio básico a transformação. Para os católicos, quem comunga e recebe a hóstia consagrada não pode mais ser a mesma pessoa.

O mistério da eucaristia tem como princípio básico a transformação. Para os católicos, quem comunga e recebe a hóstia consagrada não pode mais ser a mesma pessoa. A partir dessa ideia, as Missionárias da Fraternidade Cristã, uma associação religiosa que funciona no Recanto da Transfiguração, um sítio no limite entre Salvador e Simões Filho, na Bahia, resolveu tratar o sentido da eucaristia quase que de forma literal.

Ligada à Igreja Católica, há dois anos, a associação criou a primeira fábrica de hóstias da Bahia. Mas, não é uma fábrica de hóstias como outra qualquer. Assim como, pela fé católica, o pão e o vinho se transformam no corpo e no sangue de Cristo, a fábrica transforma vidas. Com o princípio do “lucro zero”, o objetivo é dar emprego para mulheres de comunidades carentes da região.

 A Fábrica de Hóstias Papa Francisco foi criada há dois anos e produz 40 pacotes de 500 hóstias todos os dias, ou seja, cerca de 20 mil hóstias diárias. Como funciona de segunda a sexta-feira, são 400 mil hóstias produzidas todos os meses no Recanto da Transfiguração. O nome sugestivo, criado muito antes da fábrica, tem tudo a ver com eucaristia.

“Jesus é o pão da vida e, a partir da comunhão, nos tornamos um pouco como ele. Queremos transformar vidas. Nossa fábrica pretende ser como uma hóstia na vida dessas pessoas”, compara Gisa Maia, 71 anos, coordenadora presidente das Missionárias da Fraternidade Cristã, uma instituição criada há 40 anos e que há 20 tem sede na Estrada das Pedreiras, uma região erma perto de Simões Filho.

Atualmente, são seis funcionárias na fábrica, todas moradoras da região. Duas delas são fixas, com carteira assinada, duas são contratadas e duas estão em fase de experimentação. Toda a renda vai para a manutenção do projeto. À medida que a fábrica conseguir ganhar mais mercado, mais funcionárias serão contratadas. “Não tiramos R$ 1 sequer. É tudo para o projeto”, garante Gisa.

Enquanto as funcionárias trabalham, seus filhos fazem parte dos projetos sociais que funcionam no local. “Eu não sei o que seria de mim e do meu filho sem esse lugar. Eu tiro meu dinheirinho aqui e ainda acompanho ele de perto”, afirma Joseane dos Santos, 43, que por sete anos ficou sem emprego. Joseane é evangélica, tem um filho de 8 anos e mora no Condomínio Coração de Maria, um conjunto do Minha Casa Minha Vida construído no bairro da Ceasa.

Ingredientes


Todo o trabalho é feito por mulheres (Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

A hóstia é feita de dois ingredientes apenas: farinha de trigo e água. “O segredo é fazer uma boa massa. Tem que ser uma farinha boa e achar o ponto certo de colocar na chapa”, explica Daniele Souza, uma jovem de 19 anos que fazia parte dos projetos sociais da casa e agora é a funcionária mais experiente da fábrica.

“Esse é o meu primeiro emprego. Estou aprendendo bastante, mas meu objetivo é fazer faculdade de estética”, disse Daniele, sem deixar de conferir a qualidade das hóstias recém assadas. “Não é fácil chegar a uma consistência bem fininha, mas sem ser quebradiça”, explica. As hóstias são produzidas em diversos tamanhos, entre 3,6 cm a 14 cm. Esta última, a hóstia Magnum, é usada pelos padres.

Máquinas
Antes da fábrica de hóstias, as igrejas de Salvador eram abastecidas por produtos vindos de Minas Gerais e São Paulo. Nos últimos meses, essa realidade mudou. Com seis máquinas de produção industrial trazidas do sul, duas delas alemãs, a Fábrica Papa Francisco passou a abastecer paróquias como a da Pituba, São Rafael, CAB, Irmã Dulce, Alagados e São Pedro (Avenida Sete), além de igrejas de Camaçari.

Cerca de 10% das igrejas já perceberam que a hóstia produzida aqui é boa e barata. Mas ainda há muito a conquistar. Até porque a fábrica não consegue ter estoque. Tudo o que produz vai direto para as igrejas. A hóstia da Fábrica Papa Francisco é considerada “top” entre os consumidores do produto.

“É um mercado promissor e aberto. Enquanto tiver missa terá hóstia. O que primamos é pela qualidade do produto e a qualidade dessa fábrica é excelente. Ainda mais por ser algo que tem um cunho social. Não precisamos buscar hóstias fora. Aqui agora temos bons preços e boa qualidade”, diz o padre Valter Ruy Cordeiro, pároco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no Acupe de Brotas.

Oásis
Cercado de muros altos, cercas elétricas e monitoramento de câmeras de segurança, o lugar onde funciona a fábrica é conhecido por muitos como “um oásis no deserto”. Dez missionárias residem no sítio, que tem uma casa de retiro espiritual e diversos outros projetos sociais. A associação mantém uma creche com 90 crianças, oficinas esportivas e culturais, além de um grupo de reforço escolar. Só a oficina de música trabalha com 200 crianças.

“São nossos gênios da música. O nosso sonho é criar uma orquestra. A criança que toca um instrumento musical nunca vai pegar em uma arma”, acredita Gisa, que também se orgulha o posto de saúde multidisciplinar com dentista, pediatra e nutricionista. O espaço e os projetos são mantidos com o dinheiro da casa de retiro (que funciona como uma espécie de pousada), além do trabalho de voluntários e doações, inclusive de empresas. “Um grupo de uma paróquia da Suíça nos ajuda há 20 anos”, explica Gisa.

Prensas e formas de corte industriais são usados na fábrica (Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

Como se produz a hóstia
Passo 1 – Bate a farinha de trigo e a água no liquidificador industrial

Passo 2 – Coloca a massa para assar em uma prensa

Passo 3 – Umidifica a massa pronta na estufa

Passo 4 – Corta a massa em diversos tamanhos

Fonte: O Povo Online
Créditos: O Povo Online