OPINIÃO – Em nova coluna, Flávio Lúcio escreve sobre “golpes” de Estado

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A retórica da intransigência. Esse é o título do novo artigo do analista político e professor de História da UFPB, Flávio Lúcio Vieira, no Portal MaisPB.

Ele analisa com fatos históricos o movimento político que levou ao impeachment da presidente Dilma Rousseff na Câmara Federal, no último domingo.

Flávio cita um estudo de Karl Max sobre vários golpes de Estado e conclui que o Brasil vive processo semelhante ao ocorrido em outras nações do Mundo.

Confira na íntegra a análise aqui.

 

A retórica da intransigência

Karl Marx em seu estudo clássico sobre golpes de Estado (O 18 Brumário de Luís Bonaparte) menciona a frase jocosa dita por um cardeal, Pierre d’Ailly, durante o Concílio de Constança, realizado entre 1414 e 1418: “O único que ainda pode salvar a Igreja católica é o diabo em pessoa e vós rogais por anjos”.

O Concílio de Constança discutia soluções para um racha de grandes proporções na Igreja Católica, quando era cada vez mais patente a depravação em vários sentidos da vida que levava os papas. Década depois começaria a Reforma Protestante.

Pois bem. O que vimos se desenrolar a partir do último domingo no Brasil cabe muito bem para designar o estado de espírito daqueles que, em 1851, na França, também defenderam o golpe de Estado como única maneira de preservar o status quo dos mais ricos.

No nosso caso, o padrão histórico do desenvolvimento brasileiro marcado pela alta concentração da renda e da propriedade começou a ser interrompido, ainda que de forma bastante tímida, durante os governos petistas.

O que poderia ser considerado até avanços civilizacionais num país ainda marcado pela mentalidade escravocrata e colonial de sua elite, como o direito a um salário mínimo reajustado com ganhos reais, o direito de não passar fome, só para ficarmos nesses exemplos de amplo alcance social, associados aos avanços dos muitos direitos civis conquistados ao longo da última década, começaram a ser vistos e combatidos como uma ameaça, como um mal à sociedade.

O que infelizmente apenas confirma, com exatidão até, a tese de Albert Hirschman desenvolvida no livro A retórica da intransigência, e cujo subtítulo diz muito do que é a “elite” brasileira: perversidade, futilidade, ameaça. Vamos tentar resumir essas teses.

Desde a Revolução Francesa, segundo Hirschman, três tipos de retóricas conservadoras emergiram para se opor a qualquer política que pretenda melhorias econômicas, sociais e políticas para os mais pobres.

Segundo a tese da perversidade, tais mudanças se empreendidas tenderiam a “exacerbar a situação que se deseja remediar” (só para ficar no exemplo do Bolsa Família, argumenta-se que o programa produziu um exército de vagabundos).

A tese da “futilidade” propugna a impossibilidade dessas mudanças porque existiriam “estruturas ‘profundas’ da sociedade” que as impediriam de se realizar. O fenômeno histórico do controle do poder por “elites” é uma delas – como um pau-de-arara nordestino e analfabeto ousa governar o Brasil? O “mercado” que fez suas leis transformadas em leis “naturais” seria outra?

Por fim, a tese da ameaça que “coloca em perigo outra preciosa realização anterior”, que seria a “democracia”. No caso brasileiro, poderíamos identificar o discurso recorrente de que os governos petistas são “bolivarianos” e, portanto, segundo essa apreciação que revela antes de tudo uma mistura de ignorância e má-fé, colocariam em risco os avanços democráticos das últimas décadas.

Como se vê, o que continuamos a assistir no Brasil é uma repetição, sob nova roupagem, da retórica da intransigência que observamos emergir em outras circunstâncias históricas (1954, 1964), potencializada agora pela existência da internet e das redes sociais, que, infelizmente, tem formado um exército conservador que tem na linha de frente jovens de classe média que se mostram amantes do individualismo e da livre iniciativa e avessos a qualquer possibilidade de proteção social.

Mas, do outro lado começou a se formar um exército à altura para enfrentar essa retórica reacionária, que se mostra na internet e começa a dar as caras nas ruas do país, num despertar que pode ir além da consciência democrática da juventude.

Uma consciência de que são os direitos econômicos, sociais e civis que estão sob ameaça diante do que se viu ao longo de 2015 na Câmara e que se desvelou para o Brasil com uma nitidez sem precedentes no último domingo.

Porque, certamente, em nenhum momento de nossa história a nação foi capaz de se encontrar consigo mesma como no ultimo domingo, quando seus deputados federais começaram a ir ao microfone instalado ao fim de um “corredor polonês” de reacionários e de intolerantes, todos com o apoio da nata do empresariado e sob o olhar complacente e envergonhado de uma mídia, todos cegos pelo ódio de classe e pelo interesse.

Racionavam, voltando a Marx no 18 Brumário, da seguinte maneira: “Só o roubo pode salvar a propriedade, só o perjúrio pode salvar a religião, só a bastardia, a família, só a desordem, a ordem!” Nada mais atual para entender o que se passa no Brasil de hoje, não é mesmo?

E foi assim que, ao dizer “Sim” ao golpe parlamentar, corruptos saudaram a honestidade, hipócritas gritaram por uma moral que não têm, exploradores da fé oraram por Deus e defensores da ordem festejaram a tortura, sob os gritos eufóricos das ruas, felizmente em minoria, vestidas de verde e amarelo, todos sob a presidência de um corrupto que é a síntese de todos eles.

Essa retórica da intransigência vai novamente vencer?

Fonte: Mais PB

Créditos: Mais PB


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