Saúde

A segunda onda da gripe espanhola: Muito mais letal e contagiosa que a primeira

Em meados de 2020, boatos nas redes sociais diziam que a segunda onda da gripe espanhola só aconteceu porque as pessoas abandonaram as medidas de proteção.

Estima-se que a gripe espanhola matou até 50 milhões de pessoas no início do século XX. Contudo, pode-se dizer que a doença foi apenas uma “gripezinha” se a gente analisar apenas a primeira onda daquela pandemia. Surgida num campo de treinamento de soldados no estado americano do Kansas, em março de 1918, a enfermidade se espalhou até a Costa Leste dos EUA e chegou à Europa levada por tropas do Tio Sam enviadas para lutar na Primeira Guerra Mundial. Mas as taxas de mortalidade não eram altas. A segunda onda, porém, foi devastadora.

Em meados de 2020, boatos nas redes sociais diziam que a segunda onda da gripe espanhola só aconteceu porque as pessoas abandonaram as medidas de proteção. O erro de informação foi usado como argumento para ninguém baixar a guarda contra a pandemia de Covid-19, um século depois. Na verdade, não se sabe por que a segunda onda da “espanhola” foi mais contagiosa e mortal. É provável que alguma mutação tenha tornado o vírus Influenza H1N1 muito mais agressivo. Mas não há indícios de que o mesmo possa ocorrer com o coronavírus.

De qualquer maneira, o assunto vem gerando reflexões, enquanto o Brasil teme um novo salto de casos de Sars-CoV-2, algo que já se observa na Europa.

– Na primeira onda da gripe espanhola, muita gente pegou, até o rei da Espanha ficou doente. Mas foi pouco letal e desapareceu logo – conta a historiadora Heloísa Starling, que está lançando o livro “A bailarina da morte: Gripe espanhola no Brasil” (Companhia das Letras), em parceria com Lilia Schwarcz. – Talvez a baixa letalidade ajude a entender por que a segunda onda não assustou assim que voltou, em agosto de 1918. Mas, em pouco tempo, a doença se mostrou muito mais feroz e não poupava ninguém, matou gente de todas as idades, de forma muito rápida.

Foi nesse segundo golpe que a gripe espanhola chegou ao Brasil, a bordo do navio inglês Demerara, que saiu de Lisboa e atracou no porto de Recife, em setembro de 1918, antes de zarpar para Salvador e Rio. Estima-se em 35 mil mortes no país entre setembro e dezembro. Um número baixo se comparado aos milhões de óbitos na Europa, onde os campos de batalha foram focos de disseminação da doença.

– A segunda onda chega à Europa levada pelos soldados americanos na “grande ofensiva” (também chamada de “ofensiva dos cem dias”), no fim da guerra. Além de muito letal, provocava uma morte horrível. As pessoas ficavam azuis, sangravam, encontramos relatos assustadores – conta Heloísa Starling, que é professora de História da UFMG. – Assim como ocorre com a Covid-19, a gripe espanhola expôs as desigualdades que muita gente não quer ver. Em Recife, por exemplo, foram abertas farmácias apenas no centro da cidade. Moradores da periferia que ficavam doentes percorriam longas distâncias atrás de remédios e por vezes não voltavam. Caíam na rua e eram levados para o hospital. Ou para o necrotério.

No Rio, enquanto a classe mais abastada fugia para a Região Serrana, moradores de bairros como o Méier, na Zona Norte, morriam aos montes. Relatos de escritores como Pedro Nava e Nelson Rodrigues desenham cenas alarmantes de carrocinhas apinhadas de corpos recolhidos nas portas das casas, onde eram deixados por familiares. Com algo entre 12 mil e 14 mil óbitos, a metrópole fluminense, que então era capital do Brasil, foi a que mais sofreu com a gripe espanhola no país.

Geneticamente, o coronavírus em nada se parece com o influenza que causou a pandemia de cem anos atrás. Portanto, seria uma leviandade usar a gripe espanhola para tentar prever como vai se comportar uma eventual “segunda onda” de Covid-19 no Brasil. Dito isso, ambas as doenças podem provocar sintomas semelhantes, como febre, prostração e dores na garganta. Além disso, o contágio se dava da mesma forma, pelas vias respiratórias, o que demandava os mesmos tipos de cuidado, como isolamento ou distanciamento social e higiene pessoal.

– As formas de proteção são semelhantes, o que nos diferença daquela época é a reação. Em 1918, a sociedade brasileira buscou a ciência e não foi indiferente à morte. As pessoas ficaram em casa, reagiram de forma solidária, ajudando-se. As autoridades não fizeram pouco caso com o vírus – comenta a professora Starling. – Hoje, temos uma sociedade em que diversos setores negam as recomendações da ciência e desdenham da morte de brasileiros. Naquela época, depois que a doença se instalou, nenhum governante foi ao jornal dizer que a gripe não era importante.

Fonte: O Globo
Créditos: Polêmica Paraíba