Opinião

Cícero vira enigma na sucessão e pode gerar terremoto político - Por Nonato Guedes

Foto: Reprodução/Redes Sociais
Foto: Reprodução/Redes Sociais

O prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena (PP), que tem indiscutível liderança política na Capital e em regiões do interior do Estado, tem se convertido num “enigma” para a sucessão ao governo do Estado em 2026, e o posicionamento que adota, ao invés de contribuir para a unidade da base liderada pelo governador João Azevêdo (PSB), confunde os integrantes do esquema dada a sua insistência em se colocar no páreo como alternativa, em claro sinal de confronto com o vice-governador Lucas Ribeiro, do mesmo partido, que parece deter a preferência oficial para ser ungido. Já há algum tempo Cícero tem mandado recados para Lucas e para o “clã” Ribeiro que comanda o Progressistas, insinuando que um dos critérios decisivos para a sagração de candidatura deve ser a pesquisa de opinião pública. Ultimamente tem reforçado o discurso de que o diálogo deve ser com o povo, dando a entender que as cúpulas precisam estar antenadas com o sentimento das ruas. Ontem, os recados tiveram como alvo o próprio governador, que até então tem mantido relação de parceria proveitosa com o prefeito. Lucena movimenta-se com certa desenvoltura nesse projeto porque lidera repetidas pesquisas de intenção de votos, realizadas informalmente no Estado, e porque tem conciliado sua agenda administrativa em João Pessoa com incursões políticas pelo interior, a pretexto de conhecer melhor a realidade paraibana e, até mesmo, de intercambiar experiências exitosas que estão sendo aplicadas na Capital com gestores dessas localidades – muitas das quais foram emancipadas por ele no período em que assumiu a titularidade do Executivo, com a renúncia de Ronaldo Cunha Lima para disputar o Senado em 1994. Sondado por alguns partidos, inclusive, de oposição, para a eles se filiar com a garantia de espaço para uma candidatura majoritária, o alcaide pessoense declarou ao “Polêmica Paraíba” que não está obcecado em dispor de uma legenda. “Preciso é do povo. O partido se arruma”, acrescentou, num tom de visível ironia em resposta às versões de que não tem uma sigla para chamar de sua na conjuntura local.

Dentro do PP, teoricamente, as chances de sagração do nome de Cícero Lucena como candidato a governador são remotas ou complicadas, diante da hegemonia do “clã” Ribeiro, que tem como expoente maior o deputado federal Aguinaldo, empenhado numa queda-de-braço com o União Brasil do senador Efraim Filho para obter o comando da federação formada pelo União e PP e que enfrenta impasses de acomodação em vários Estados. Lucas tem, ainda, o respaldo do Republicanos presidido pelo deputado federal Hugo Motta, que já sinalizou a candidatura do seu pai, o prefeito de Patos, Nabor Wanderley, como um dos candidatos ao Senado em dobradinha com o governador João Azevêdo. Restaria a Lucena a compensação de indicar nome para a vice-governança na chapa majoritária – e tem sido agitado nas rodas políticas o nome do seu filho, Mersinho, deputado federal, como opção. Mas o foco segue sendo na cabeça de chapa, não na cadeira de vice. O prefeito já foi inquinado por integrantes do esquema governista por estar supostamente se articulando com líderes oposicionistas, na preparação para a hipótese de ter que romper com a liderança do governador João Azevêdo a fim de sustentar a sua candidatura ao Palácio da Redenção. Esses contatos envolveriam, por exemplo, expoentes do grupo Cunha Lima (PSD) como o ex-governador Cássio e o ex-deputado federal Pedro Cunha Lima, que foi candidato a governador em 2022 e surpreendeu com uma votação expressiva que o levou para o segundo turno. Cícero tem se entendido, também, com o presidente da Assembleia Legislativa, Adriano Galdino, que é um peixe fora d’agua dentro do Republicanos, pela falta de apoio para também viabilizar candidatura ao governo. Mas, concretamente, nem Lucena nem Galdino avançam na direção da ruptura com o governo de João, o que embaralha opiniões de analistas políticos e avaliações de personagens do tabuleiro sucessório estadual.

Como admitiu na entrevista ao “Polêmica Paraíba”, Cícero Lucena enfrenta uma situação extremamente desconfortável em termos políticos, agravada pela circunstância de que os prazos legais para definição estão se afunilando sem que haja perspectiva palpável de encaminhamentos mais seguros. Há quem afirme que esse cenário poderia ter sido evitado se Lucena tivesse esgotado previamente pautas de um “acerto de contas” com o partido a que é filiado, em uma espécie de jogo da verdade sobre condicionantes para o pleito do ano vindouro. Tal não aconteceu – e houve erros táticos, também, por parte do “clã” Ribeiro, que apostou mais na imposição do que no diálogo para consolidar a unidade. A esta altura, há uma incógnita no ar – e Cícero mantém-se como enigma a ser decifrado pelos próprios companheiros atuais de esquema político. Uma decisão extrema que Cícero venha a adotar provocará, sem dúvida, um terremoto político no Estado para 2026.