A velha política e sua força, Por Fernando Brito

Esperei bastante até escrever, porque não quis fazer isso sob o impacto das decepções, que costumam nos cegar e enraivecer. E é por isso que convido o leitor a ler com a mesma cautela e tranquilidade.

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A vitória de Dilma Rousseff com  oito pontos de vantagem sobre Aécio Neves é, sem dúvida, um resultado muito abaixo do que se esperava.

Daí  a se tratar de um indicador do resultado do segundo turno, vai uma distância imensa.

O “deslocamento automático” do eleitorado de Marina Silva para Aécio, de alguma forma, já se deu no primeiro turno, com a ofensiva das pesquisas empurrando o processo de transferência da parcela mais conservadora do eleitorado antes marinista. O que remanesceu com a candidata permaneceu ali porque não é unânime, dentro deste grupo, o antigovernismo mais raivoso.

Eu alimento poucas ilusões sobre um apoio de Marina Silva ao PT. Ela sinalizou à exaustão qual é a sua opção preferencial nestes tempos. Sua entrevista pós-eleição,  muito pouco contrita para quem tomou uma surra eleitoral há poucas horas, deu todos os sinais de para onde irá, mais ou menos explicitamente.

Aécio, apesar da arrancada surpreendente – até para os que, como este blog, apostavam em sua ultrapassagem sobre Marina Silva há muito tempo – contabilizou um sério revés: a derrota em Minas.

Em compensação, teve em São Paulo um resultado excepcional, superior àquele que teve José Serra no primeiro turno de 2010.

Dificilmente o campo popular terá um resultado melhor que um derrota por algo como 40 a 60 por lá, no segundo turno, superior aos 46 contra 54   que Dilma obteve lá contra José Serra.

Foi em São Paulo que se registrou a diferença que baixou o percentual de Dilma, de 46,9 para 41,6 no total de votos válidos.  A queda de 37, 5% na eleição de 2010 para 25% respondem por três pontos, ou 53% desta diferença. Quase outro um ponto foi perdido com a nova situação nova que se criou, e que não deve se manter, em Pernambuco, onde teve 61,7% em 2010 e 44.1%, agora.

O resto foi perdido e ganho  no balanço de outros estados aqui e ali, sem nenhuma situação que seja de difícil reversão ou ampliação.

Estas são as contas, mas eleições não se vencem com contas.

É preciso entender o que existe de realidade em meio ao que se diz sobre favoritismos e rejeições.

A primeira delas é a de que só os tolos se iludem com a superficialidades que tomam conta dos discursos de parte daqueles que, por suas condições sociais e intelectuais, acham que refletem os sentimentos da maioria da população.

Não que estejam errados em seu conteúdo, mas estão em suas pretensões de serem universais.

Os dois governadores mais questionados pelas manifestações de junho, Sérgio Cabral e Geraldo Alckmin saíram vitoriosos do primeiro turno eleitoral.

A simpática e combativa Luciana Genro teve, no Rio de Janeiro, 227 mil votos. O energúmeno Jair Bolsonaro, 464 mil, o dobro. E quase quatro vezes mais que em 2010.

Quem é que está ganhando com a ultra-radicalização?

O discurso da  nova política, nos exemplos que dei e nos resultados em todo o Brasil ajudou a ressuscitar fantasmas da velha política que, talvez, tivessem seguido em seu processo de desaparecimento progressivo que vinha marcando sua trajetória.

O panorama é preocupante e deve nos levar a reflexões muito responsáveis.

Porque o que está em jogo não é uma eleição.

É o futuro de um país que vinha avançando e que não podemos deixar retroceder, até mesmo pela vontade de avançarmos mais depressa.