Internado com Guillain-Barré após zika, professor só mexe os olhos

Casos relacionados à zika comprometem o sistema nervoso central

sindrome zicaPrimeiro, o zika adiou o sonho de ser mãe da professora Camilla Walter Versiani. Agora, a síndrome de Guillain-Barré lhe roubou o sono e a alegria. Ela é casada com Jonas Antônio Ávila França Júnior. Aos 33 anos, o professor e mestrando em química está lutando pela vida na UTI do Hospital Universitário Antônio Pedro, da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói.

Jonas adoeceu com a síndrome de Guillain-Barré após apresentar sintomas como os da infecção por zika. Sua mulher decidiu contar o drama da sua família para que outras não passem pela mesma tragédia.

— Não é justo. Essa é uma doença que poderia ser prevenida. Ninguém nunca se preocupou com a dengue, com o mosquito. Jonas tinha uma saúde maravilhosa. É forte, mede 1,85m, pesa mais de 100 quilos. Nunca teve nada grave. E agora meu marido está assim. E até quando poderão tratá-lo? Ele terá o tratamento de que precisa? — pergunta a professora, que parou tudo para se dedicar somente ao marido.

PELO MOVIMENTO DOS OLHOS

 

Jonas recuperou a consciência há dois dias, mas move apenas os olhos e respira por aparelhos. É capaz de manifestar algumas expressões faciais e pode ler bilhetes da família. A mulher e a sogra, Margarete de Jesus Walter Versiani, visitam o rapaz todos os dias e tentam fazer com que não se sinta abandonado.

— Pouco antes de perder a consciência, ele pediu que não o deixássemos sozinho — conta Margarete.

Mãe e filha vão todos os dias vê-lo na UTI. Vivem em função dele. Desde que abriu os olhos, Jonas responde a elas apenas com movimentos dos olhos. Tenta balbuciar algumas palavras, mas não consegue.

SONHO DE TER FILHO INTERROMPIDO

Há menos de um mês, Jonas dava aulas, empenhava-se na conclusão do mestrado e esperava a epidemia de zika passar para realizar o sonho de ter um filho com Camilla, de 30 anos. Eles são casados há um ano e quatro meses, após um namoro de oito anos.

— Ele estava louco para ser pai. Mas em novembro, depois que começaram os alertas do zika, ficamos com medo e resolvemos esperar — diz ela.

O zika mudou mais uma vez a vida da família em 29 de dezembro. Jonas começou a ter dores de cabeça, febre e vermelhidão no corpo. Outras pessoas de seu bairro, em São Gonçalo, também apresentaram os sintomas na época.

— Ele teve dores nos olhos também. Mas não ficou debilitado. Em 4 de janeiro, já parecia recuperado. Sentia-se bem. Só tinha um pouco de dor nos olhos. Mas, no dia seguinte, voltou a piorar. Teve febre, prostração, dor. Passou o dia descansando. Hidratou-se. Fez tudo o que mandam fazer — lembra a professora.

No dia 6, Jonas amanheceu ainda pior. Não conseguia mais urinar. Começou a sentir dormência nos pés.

— Fomos a um pronto-socorro. Ele fez exame de urina. Deu normal. Nos mandaram para um urologista. Não resolveu. À noite, o peso nas pernas piorou — recorda-se Camilla.

Na madrugada de 7 de janeiro, Jonas perdeu a força nas pernas e caiu no banheiro. O casal, então, buscou ajuda dos pais de Camilla. As pernas do professor já não se mexiam. Ao amanhecer, os braços também estavam paralisados.

— Ele começou a enrolar a língua. Ficamos desesperados. Fomos a uma neurologista, que desconfiou de Guillain-Barré. Ela nos encaminhou para o Antônio Pedro — acrescenta Camilla.

A mãe dela conta que, a partir do dia 7, a doença avançou rapidamente.

— Os rins pararam. Depois os pulmões. Ele foi ligado a um respirador. O problema chegou ao cérebro. Disseram que tinha encefalite. O sedaram. E faz 28 dias que estamos aqui. É muito duro. Ele está lúcido. E não sente o corpo. Não pode se comunicar — descreve Margarete.

“NOSSA VIDA PAROU”

Camilla não pensa em mais nada que não seja a recuperação do marido:

— Minha vida parou. Nossa vida parou. Tenho chorado muito, não sei de onde tiro força. Só resta esperar.

Margarete não perde o otimismo:

— Ele está fazendo tratamento. Já abriu os olhos. Tenho Jesus no nome e digo que o Jonas vai ser nosso milagre.

O Antônio Pedro informou que cinco pacientes deram entrada com suspeita de Guillain-Barré. Segundo o hospital, um caso foi confirmado e outros três diagnosticados como polineuropatia radicular. O chefe do laboratório do hospital, Oswaldo Nascimento, reafirmou que há seis casos graves de Guillain-Barré.

ATAQUE GRAVE AO SISTEMA NERVOSO

O professor Jonas Júnior desenvolveu uma forma grave da Guillain-Barré associada à infecção pelo zika. Exames sorológicos para comprovar se ele teve mesmo o vírus ainda não ficaram prontos. Mas seu caso se enquadra na correlação entre o vírus e a síndrome neurológica. Jonas é um dos seis pacientes internados nos hospital da UFF. Outros dez pacientes, com formas mais brandas da doença, já tiveram alta. O neurologista Oswaldo Nascimento está surpreso com a gravidade de alguns casos. Diferentemente do que acontece nesta síndrome, os relacionados à zika comprometem o sistema nervoso central.

Fonte: O Globo