Há singularidades, que precisam ser ressaltadas, na prisão do ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2018 e na iminente detenção do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro (PL), cuja sorte poderá ser decidida esta semana pelo Supremo Tribunal Federal. Bolsonaro já cumpre prisão domiciliar com o uso de tornozoleira eletrônica e o monitoramento da Polícia Federal, pelo receio de fuga do Brasil, diante da fraqueza em encarar o veredicto da Corte por acusações graves como a de tentativa de articulação de um golpe de Estado que incluía o assassinato de autoridades de Poderes constituídos. Ele nega as acusações, considera-se um “perseguido político” e sua defesa tem tentado, a todo custo, embargar ou protelar a adoção de medidas mais duras como a prisão preventiva. Não há registro, porém, de comoção popular em solidariedade ao ex-mandatário, que mantém o apoio apenas da fanática e fiel bolha terraplanista, nem há, no radar, perspectiva de fato novo capaz de reverter o seu destino indeclinável.
Lula foi condenado pelo ex-juiz federal Sérgio Moro, de Curitiba (PR), a nove anos e dez meses de prisão a pretexto de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, sentença que foi ampliada para doze anos pelo Tribunal Federal de Recursos da Quarta Região em Porto Alegre. Em cinco de abril de 2018, Moro determinou que fosse efetuada a prisão de Lula, que se encontrava em São Paulo, operação que acabou se revelando uma verdadeira odisseia diante da negativa do ex-presidente em se entregar e da disposição em resistir, o que era endossado por apoiadores e militantes/simpatizantes do líder petista. Após muita confusão e negociação, Lula acabou recolhido à carceragem da Polícia Federal em Curitiba no dia 7 de abril de 2018, ali permanecendo 580 dias, depois que o Supremo considerou ilegal a condenação em segunda instância. A soltura de Lula ocorreu no dia 8 de novembro de 2019. No livro biográfico sobre Lula, o jornalista Fernando Morais lembra que a efetivação da prisão do petista consagraria Moro como líder de um terremoto político iniciado quatro anos antes e que tinha como epicentro a chamada Operação Lava Jato, por ele comandada. Moro se jactava de ter chefiado uma guerra à corrupção sem precedentes na cena nacional. Em nenhum momento, Lula fugiu da Lei, mesmo contestando o rigor do processo a que foi submetido.
O ex-presidente acabou se entregando com a alegação de que desejava provar sua inocência e que não queria agir como um foragido. Ele resistiu dentro do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC paulista em São Bernardo do Campo, palco de grandes manifestações conduzidas por Lula quando era líder operário. Do lado de fora, centenas de manifestantes davam início a uma vigília para impedir a prisão – de trabalhadores a líderes sindicais, ativistas, intelectuais, artistas e políticos de vários Estados. A palavra de ordem era berrada aos quatro cantos: “Não se entrega! Não se entrega!”. Calculava-se que havia pelo menos 10 mil pessoas dispostas a permanecer acampadas ali até Lula decidir que destino tomar, a despeito de rigorosas barreiras de segurança montadas nas portas de entrada. As negociações com emissários da Polícia Federal foram tumultuadas, com exigências de parte à parte, enquanto a repercussão se fazia sentir na própria mídia internacional. A advogados e interlocutores, Lula dissera descartar absolutamente a hipótese de se asilar em alguma embaixada e advertia que fugir do Brasil seria reforçar o estigma de culpado que os adversários queriam colar em sua imagem.
Em meio a pressões e opiniões variadas, Lula externou uma preocupação: a de que a resistência prolongada pudesse gerar uma carnificina, atingindo inocentes que se concentravam em solidariedade a ele. “Não quero ninguém ferido, não quero que ninguém se machuque. Mas eu não vou pegar um carro e me entregar na Federal, como o Moro exige. Isso eu não faço, não aceito. Se eles quiserem, que venham me buscar aqui”. As marchas e contramarchas seguiam em alta voltagem, mas o desfecho estava se tornando previsível. Lula chegou a discursar para a multidão em tom emocionado, relembrando a sua trajetória e os ataques sofridos, bem como referindo-se ao que chamou de “golpe” contra a ex-presidente Dilma Rousseff com seu impeachment. Concluiu se definindo como “um construtor de sonhos”.
Lula construiu passagens épicas na sua biografia, mesmo em momentos hostis ou adversos. Mas, até onde se sabe, sempre se portou com dignidade. Esta é uma das diferenças que o separa profundamente do ex-presidente Jair Bolsonaro, acovardado diante da “Hora H” e inteirado, com antecedência, de que seu futuro político pode vir a estar liquidado, por culpa da sua própria ambição e das sandices praticadas no histórico de sua vida pública. Bolsonaro não recorre a instrumentos legítimos de ampla defesa, mas a métodos espúrios e pouco ortodoxos, inclusive, com manipulação de consciências, no esforço para tentar se safar do dever de prestar contas que, não obstante, parece irreversível na cruzada que ora atravessa.