opinião

A hipocrisia da competitividade e um espírito olímpico confuso - Por Marcos Thomaz

Ora, pois. O problema de interpretação de conceitos por algumas pessoas, grupos é esta distorção das coisas.

A menina da zoropa tombou no skate. Levantou ilesa. Em gesto espontâneo, eu vibrei. Logo meu censor inconsciente (aquele vigilante, big brother mental) alarmou ao pé do ouvido dizendo que é antidesportivo, fere o espírito olímpico torcer contra.

Ora, pois. O problema de interpretação de conceitos por algumas pessoas, grupos é esta distorção das coisas.

O necessário politicamente correto, ao tempo que trouxe à tona sentimentos básicos e urgentes como respeito ao diverso, empatia, olhar humanizado ao outro, é desfigurado e utilizado para alimentar a hipocrisia coletiva em questões triviais.

Oportunamente aquelas pessoas que se arvoram a “palmatória do mundo” usam o recurso para fingir serem o que não são e pagarem de “diferentões”.

A Olímpiada de Tóquio serve como ilustração de como atuam esses “seres iluminados”.

Vem comigo…

Nestes tempos de Jogos Olímpicos pandêmicos ganhou forma conceitos estranhos a própria natureza esportiva, como por exemplo, negar a competitividade.

Creiam, há correntes que questionam, inclusive, o caráter de disputa, elemento básico e essência que dá sustentação a prática esportiva de alto rendimento.

O que motiva o atleta, fomenta a torcida é exatamente a competição, superar os próprios limites, e também sim, vencer o oponente.

É, coleguinhas da falsa moral, não há problema em confrontar, tentar vencer o outro no esporte.

Ali, aliás, é a arena ideal na vida para isso. Quem sabe se praticassem essa busca por vitórias nas praças esportivas, algumas “almas” abandonassem o ímpeto conflituoso, belicoso, rasteiro que praticam no cotidiano.

Querem racionalizar o fenômeno de torcer por alguém, ou equipe, desportivamente. Robotizar o instinto de afeição, ou simpatia, preferência por determinado atleta, ou coletivo.

Quem, no envolvimento do esporte vai se deixar controlar por estas reações automatizadas??

Me perdoem, mas fingir indiferença a ação de quem disputa alguma prova, medalha contra um atleta de sua predileção é de uma desonestidade medíocre.

Mas radicalizar, quase retirar a disputa é ferir mortalmente o esporte e tornar as Olímpiadas em algo apenas contemplativo, esvaziando valor e fazendo-a se encerrar em si mesma.

O episódio dos atletas amigos que decidiram dividir a medalha de ouro nesta edição pode até ser utilizado simbolicamente ao mundo em tempos tão nebulosos, sombrios, mas não pode ser regra, nem transposto a toda e qualquer situação. Menos ainda servir de combustível aos oportunistas de ocasião e extremistas que querem criar conceitos estapafúrdios a partir disso e dinamitar toda lógica esportiva.

Sabemos aonde esses absolutismos retóricos vão desaguar…

Que se restrinja a excepcionalidade e sirva de marco, mas nada além disso…

Imagina se todo mundo resolve abrir mão, desistir de disputar dentro das regras com adversário, seja fraterno, íntimo, ou não?? O que vai determinar o esporte??

Estão deturpando o conceito de espírito olímpico, com interpretações vãs, ocas.

E vejam bem, continua sendo mais importante competir do que vencer nas Olímpiadas.

Com base neste preceito se executam políticas como inclusão de atletas de países em conflitos, mesmo que sob sanção da ONU, desportistas refugiados etc.

Mas uma coisa não anula a outra. O fundamento social, unificador, libertador das Olímpiadas em nada impede a sadia disputa no campo esportivo. Ela é estimulante como o esporte deve ser, instiga a extrair o máximo de nós mesmos, ensina a respeitar o oponente, quem está no “outro lado do front” e, didaticamente, educa que adversário não é inimigo. Opor-se não significa detestar, querer eliminar.

Mas mais do que tudo a competição esportiva, ensina a capacidade de redenção, perder e levantar, ou apenas, que perder faz parte do esporte… e da vida. E isso não é demérito.

Em tempo, voltando a meu modo torcedor… a holandesa do skate não conseguiu executar a manobra, a japonesa se desequilibrou no salto e a brasileirinha Rayssa Leal garantiu a medalha de prata.

E eu, sem remorso, ou peso na consciência, comemorei entusiasticamente.

Fonte: Marcos Thomaz
Créditos: Marcos Thomaz