Conhecimento, conscientização e capacitação

Projeto de extensão da UFPB incentiva alunas da área de Tecnologia da Informação

Um projeto de extensão criou uma rede de apoio para estudantes dos cursos de computação do Campus IV, em Rio Tinto, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Desde 2016, três professores e quatro alunas da licenciatura em ciência da computação (LCC) e bacharelado em sistemas de informação (SI) da UFPB mudam a dinâmica no centro.
Tudo começou após uma tarde de atividades de integração para as discentes, realizadas no ano anterior. Elas se sentiram inspiradas em promover mais igualdade na área depois de ouvir sobre os conflitos e o afastamento das colegas.

“As alunas relataram suas dificuldades e pensamentos de desistir dos cursos por se sentirem sozinhas e sem identificação com os colegas, assim ficou evidente a necessidade de montar uma rede de apoio para as universitárias”, disse a professora e coordenadora do grupo, Vanessa Dantas.

O IT Girls oferece atividades de conscientização com palestras sobre a história das mulheres na computação, exibição de filmes com protagonismo feminino e mesas redondas. Também são oferecidas atividades de capacitação, através de oficinas e treinamentos sobre programação. Além disso, as mulheres do projeto produzem pesquisas, incluindo levantamento de dados sobre evasão feminina no ensino superior e a atuação das egressas dos cursos no mercado de trabalho.

Mulheres são menos de 20% no curso

Por meio de uma pesquisa realizada pelas mulheres do IT Girls, elas mostraram uma realidade triste. “Um Estudo Inicial Sobre As Alunas Ingressantes no Curso de Licenciatura em Ciência da Computação da Universidade Federal da Paraíba” foi publicado em 2016 e mostrou que as alunas representam apenas 17,6% do total de ingressos no curso de licenciatura em ciências da computação.

Ainda segundo a pesquisa, menos de 30% das vagas em cada semestre são preenchidas por garotas. Durante nove anos de curso, das 151 alunas ingressas, 76 trancaram ou cancelaram suas matrículas, representando uma taxa de 50% de evasão.

A pesquisa “Perfil profissional das egressas dos cursos de Computação da Universidade Federal da Paraíba – Campus IV”, publicada em 2019, mostrou que até junho de 2018, 217 alunos concluíram os cursos de licenciatura em ciência da computação e bacharelado em sistemas de informação. Destes 171 eram homens, e apenas 46 mulheres levaram seus diplomas em 13 anos de curso.

Resistência

O IT Girls surgiu com um nome de duplo sentido proposital, para provocar uma mudança e tentar reverter esses números. É uma abreviação do inglês ‘Information Technology Girls’ (Garotas da Tecnologia da Informação), já que a área é popularmente conhecida como TI, em português, e IT, em inglês. Mas o “It girls” também é um trocadilho com o mundo da moda, já que o termo é usado para descrever garotas que lançam tendências.

“No nosso caso, tecnologia é a tendência que queremos lançar e esperamos influenciar outras garotas, despertando nelas o interesse pela área”, explicou a professora Vanessa.

Atualmente, o IT Girls conta com três professoras e um total de quinze discentes e já teve bolsas dos editais Probex, Prolicen e CNPq para suas alunas, além de participar por dois anos seguidos da Expotec. Podem participar do projeto todas as alunas dos cursos de licenciatura em ciência da computação e bacharelado em sistemas de informação, mas é importante para as mulheres do IT Girls que os homens do curso participem das discussões.
No começo, o projeto encontrou muita oposição dos homens do curso. Muitos alunos achavam que estavam sendo prejudicados por atividades voltadas apenas para as mulheres, o que resultou em críticas e boicotes. “Por um bom tempo, alguns alunos e professores se referiam ao nosso projeto com um certo desdém: ‘Ah, aquele projeto de meninas'”, lembra a professora Vanessa.

Já a estudante de licenciatura em ciência da computação Lindalva Barbosa enfrentou muitas críticas de colegas quando entrou no projeto. Ouviu chacotas sobre como o projeto não serve para nada e que as alunas envolvidas não realizam algo significante. Hoje, o IT Girls está em seu quinto ano de atuação, com reconhecimento de todo o campi e até fora da UFPB.

Antes do projeto, gênero nunca foi discussão abordada em sala de aula, nem dentro do centro de computação. Após a atuação do grupo, toda a comunidade acadêmica foi impactada. O assunto virou tópico em reunião de departamento, denúncias de assédio no campus foram surgindo e alunos e professores foram mudando suas condutas e comportamentos.

Conhecimento, conscientização e capacitação

Lindalva está dentro da equipe desde 2018, mas faz parte de atividades do IT Girls como ouvinte desde 2016. Essa experiência mudou sua vida, dentro e fora da academia. Foi através de aulas de capacitação ministradas por ela que a aluna perdeu o falar em público, aprendeu a trabalhar em equipe e está à frente de uma turma, compartilhando seu conhecimento. “Como ser humano hoje sei lidar com o preconceito de ser mulher na área de computação, sobre a importância do feminismo ao longo dos anos, sobre a importância da sororidade”, disse a aluna.

Entre as atividades realizadas, está a capacitação, com oficinas de computação e programação voltadas para dentro da própria equipe e depois para fora dela, abrangendo alunos do Campus IV e da Escola Cidadã Integral Alzira Lisboa, em Jacaraú. “Essas atividades foram de fundamental importância para vida academia como graduanda de licenciatura”, relatou Lindalva.

São nessas oficinas que as garotas do IT Girls utilizam o ‘App Inventor’, uma plataforma que facilita a criação de aplicativos móveis para smartphones e tablets. É ferramenta que permite o desenvolvimento de softwares para sistemas Android. Ele não requer conhecimento de tecnologia: seus usuários podem explorar o básico da programação e com o tempo se tornarem aptos para desenvolver seu próprio aplicativo.

As apresentações de filmes agem na conscientização de docentes dos cursos de computação. Na atividade, o longa apresentado aborda um tema diferente e, ao final da exibição, acontece um debate em que os alunos podem trocar ideias e aprendizados. Ano passado, as alunas assistiram “Grandes Olhos”, um filme de Tim Burton que explora relacionamentos abusivos e arte feita por mulheres.

Já o Chá da Tarde é um evento que acontece todo ano exclusivamente para as alunas e professoras dos cursos de computação do campus IV. Cada ano, um tema diferente é escolhido e a partir disso são feitas dinâmicas, brincadeiras e um bate-papo. Ano passado, por exemplo, o assunto foi “Feminismo e o poder do elogio”.

“Acho que o chá da tarde é o momento mais mexeu comigo, desde de quando apenas era apenas uma participante, quanto agora que faço parte da organização. Pois é um momento único quando reunimos todas as aulas e professoras dos cursos de computação para trocar experiências”, falou Lindalva.

Mudança

O projeto vai além de um grupo de extensão na faculdade. Ele proporciona o espaço seguro para alunas, onde podem discutir autoestima, sororidade, as diversas violências dentro da área de computação e fora, além de produzir e incentivar o conhecimento de mulheres.

“Não existe nada mais gratificante do que ouvir de nossas alunas que muitas vezes elas pensaram em desistir do curso, mas, graças ao projeto, elas encontraram motivação e forças para continuar”, disse a coordenadora Vanessa.

Para a estudante Lindalva, o grupo é uma esperança e foi para ela, quando conheceu o grupo no seu primeiro semestre da faculdade, um motivo para continuar.

“Como estamos em área majoritariamente masculina e sofremos preconceitos, assédios, ele veio pra mostrar pra mim e para as outras alunas que não estamos sozinha e que tecnologia é pra mulher sim. Hoje sinto muito orgulho em fazer parte desse projeto”, relatou a aluna.

Mulher Tech Sim Senhor 2020

Um evento vai reunir mulheres da área da Tecnologia da Informação em João Pessoa, dia 28 de março, e conta com a presenças das IT Girls. O Mulher Tech Sim Senhor é realizado desde 2016 pelo Women Techmakers JP e conta com palestras, mesas e oficinas feitas por mulheres da área para mulheres. Os temas abordados vão desde a informática, dados, programação, empreendedorismo até o protagonismo feminino e a presença de mulheres no mercado de trabalho. As inscrições podem ser feitas a partir de sexta-feira (6), pela plataforma EventBrie.

 

Fonte: G1 PB
Créditos: Polêmica Paraíba