O aumento de Ricardo

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Rubens Nóbrega

O governador Ricardo Coutinho deu notícia de reajuste salarial que pode muito bem deter e até reverter em pelo menos 10,7% a escalada de sua impopularidade perante boa parte do funcionalismo estadual.

Afinal, no Estado em que o governo é o maior patrão de todos e no geral seu povo é generoso e condescendente com os seus dirigentes, os servidores públicos são mais ainda. Qualquer agradozinho, o governador da vez vira herói.

Mesmo assim, com a boca torta pelo uso continuado do cachimbo da mistificação, o monarca tentou dourar a pílula dos 3%. Não precisava. Bastava faturar o feito pelo que ele tem de melhor: doravante, todo servidor terá o salário mínimo como vencimento básico, na cabeça do contracheque. Mas…

Pra começar, ele disse – e seus áulicos e arautos repicaram – que nenhum outro governador está fazendo o que ele fez. É verdade, Majestade. Realmente, os outros governadores não estão fazendo agora porque já fizeram: no início ou no meio de 2011 ou, em alguns casos, desde o ano passado, com vigência a partir deste.

Quer ver? Alagoas e Piauí deram 7%; Bahia, 5,91%; Sergipe, 5,7; Pernambuco e Ceará, 5%. No Rio Grande do Norte, até onde apurei o governo conseguiu pagar até setembro 30% dos reajustes aprovados ano passado.

Outros detalhes devem ser ainda notados ou lembrados: em Pernambuco, a exemplo do que acontece em vários outros Estados, desde 2006 os servidores vêm recuperando perdas e somavam 51,6% de reajustes até 2010, contra uma inflação de 26,9% no período.

No Ceará, além de uma política de recuperação gradativa dos salários, os servidores dispõem de uma mesa de negociação permanente com o governador. Ao contrário do que acontece aqui, diga-se.

Por essas e outras, ao fazer uma coisa boa, o soberano não deveria ter estragado com essas estocadas nos adversários e até em antecessores atualmente aliados, desconhecendo o que outros fizeram (e bem mais que ele) pelos servidores.

Ademais, repor perdas é obrigação. Tanto quanto fixar data-base para as categorias. Sem contar que com nem com ‘bolsas’ e gratificações concedidas a algumas categorias esse reajuste consegue empatar com os PCCRs do governo de Cássio.

Pelo que me lembro, os planos de carreira, cargo e remuneração do Cássio II aumentaram a folha do Estado em R$ 25,5 milhões por mês, ou seja, R$ 2 milhões a mais do que o incremento previsto para o ano que vem.

É preciso dizer também que se Cássio ficou com o bônus dos PCCRs, Maranhão arcou com o ônus e só deu fé de cuidar de ‘aumento’ com a finada ‘Pec 300’ da Polícia.

Mas não dá pra esconder, para ser justo, que o Maranhão III patinou nos mimos aos servidores porque lhe coube, justamente, pagar tudo o que Cássio conseguiu aprovar no final de 2008, a dois meses da cassação definitiva.

Por fim, não dá pra esquecer uma coisa: enquanto a grande maioria dos servidores vai receber 3% no seu contracheque, Ricardus I e sua corte (vice-governador, secretários e adjuntos) terão aumento (real) de 27,92%.

Ou vocês estão esquecidos daquilo que os deputados estaduais aprovaram no apagar de 2010 pra eles mesmos e, por tabela, para o governador, o vice e auxiliares diretos? Não esqueci também, lógico, que o governador, “para dar exemplo”, deu ordem para que aquele aumento não fosse implantado no seu contracheque. No dele nem de seu vice, seus secretários e secretários executivos.

Puro jogo de cena. Além de passarem a receber o aumento agora em 2012, Ricardus e equipe devem embolsar no início do novo ano um polpudo atrasado quando do pagamento (ou até antes) da primeira folha.

Posso garantir, de outro lado, que eles não sentiram em 2010 o pretenso congelamento tanto quanto quem teve melhorias salariais subtraídas por esse governo, incluindo algumas conquistadas na Justiça.

Aposto como eles suportaram bem melhor o correr do ano do que muita gente boa que trabalha pra se lascar no Estado e teve gratificação reduzida em dois terços. Sobretudo porque em agosto passado Sua Majestade aumentou em até 87,5% as diárias que ele e o pessoal do primeiro escalão recebem quando viajam. E como viajaram!

Pra vocês terem uma idéia, as diárias foram a R$ 225 para viagens dentro do Estado, a R$ 450 para viagens para outros Estados e a R$ 675 para viagens ao exterior. Mais um detalhe: no reajuste das diárias, Ricardus contemplou a Polícia Militar com os menores percentuais. A maior diária, de um coronel, passou de R$ 240 para R$ 360.

E sabem quanto o governador recebeu em diárias entre agosto e outubro deste ano, ou seja, em apenas três meses? Exatos R$ 16.375,00 (dezesseis mil, trezentos e setenta e cinco reais). Quem quiser conferir (por curiosidade ou dúvida), é só consultar o Sagres, serviço acessível a qualquer um no portal do Tribunal de Contas do Estado (sagres.tce.pb.gov.br).

Por fim, pra quem gosta de fazer contas, anote aí (inclusive para calcular o atrasado dos ‘home’), quanto eles vão ganhar a partir de janeiro: o governador passa de R$ 18.371,50 para R$ 23.500,82; o vice Rômulo Gouveia, de R$ 14.697,20 para R$ 18.800,66; os secretários de Estado, de R$ 13.778,62 para R$ 17.625,61 e os chamados secretários executivos (antigos adjuntos), de R$ 7.830,00 para R$ 10.016,14.

Isso é que é aumento! Esse é o verdadeiro aumento de Ricardo. O resto é conversa.

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