Opinião: Repórter critica postura de jornalista de SP sobre manifestação de garis

"R$ 10,00, cara Rede Globo e repórter, faz uma diferença enorme"

Não quero aqui opinar sobre o editorial que a Rede Globo carrega em seus noticiários, essa capacidade de formatar um tipo de jornalismo que não representa, de fato, o que é a cidadania. Muito menos sobre a pessoa de Philipe Guedes, repórter de idade nova, assim como a minha.

Não o conheço, não sei quais são seus valores pessoais, culturais, não sei o que pensa sobre questões tão profundas como as pautas que o mesmo desenvolve para seu empregador.

O que tenho direito, e isso é garantia constitucional, é dialogar acerca do que nos chega como informação desses meios de comunicação, concessões dadas por licitação via Ministério das Comunicações.

Este repórter hoje me fez refletir sobre um comentário dado em sua cobertura em relação à greve dos Lixeiros de Taboão da Serra, no Bom dia São Paulo. Antes de encerrar sua participação ao vivo, ele disse mais ou menos assim: a diferença entre o que querem dar os empregadores e o que querem os lixeiros é de R$ 10,00. O que se faz hoje com dez reais, uma diferença tão pouca…

Como disse, não me interessa o que pensa essa pessoa, seus valores de vida. Mas, sim, sua informação, ainda mais quando carregada de opinião. Dentro dessa informação, cabe aqui a minha indignação contumaz por tamanha falta de imersão social e zelo por uma das piores remunerações desse Brasil tão lindo de meu Deus.

Para um trabalhador que ganha entre R$ 900,00 e R$ 1 mil, como os lixeiros de Taboão da Serra, alguns aposentados, garis, copeiros, garçons etc., R$ 10,00, cara Rede Globo e repórter, faz uma diferença enorme.

Não e nunca ao mundo que defendem ao apropriararem-se desse comentário, do nível de vida das pessoas que por aí desenvolvem esse tipo de jornalismo “opinativo”, mas vazio de sentidos e respeito. Falta muito para que matérias como essa, desta manhã, tenham cunho social e valor cidadão.

Como é função minha também informar, até porque sou jornalista, aqui segue uma rápida consulta do que se fazer com R$ 10,00, que poderão entrar no final do mês na conta desses profissionais que já trabalham nas piores condições humanas e recebem tão pouco, explorados de todas as formas:

Frango inteiro congelado R$ 3,29 (dá para servir muita gente num domingo de alegrias).

Arroz Camil 5 kg R$ 9,98 (rendem muito).

Abobrinha Italiana ou Cenoura: R$ 2,39 (vida mais saudável).

Ovos Grandes 20 unidades: R$ 4,99 a bandeja (alimenta o mês inteiro).

Nescau (produto fino, hein) R$ 4,28 (tem criança, filho de lixeiro, que nem sabe o gosto disso).

Coca Cola (veneno para as crianças) 1,5 litros, R$ 3,69 (isso nem vale consumir).

Café Pelé R$ 5,29 (para despertar e tentar entender esse noticiário matinal de dar nojo).

Oléo de Soja Lisa: R$ 2,69
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Lasanha Aurora: R$ 6,99
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Requeijão Vigor R$ 3,75
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Leite em Pó Ninho R$ 8,19 (outro produto raro nas mesas dos lixeiros).

Além disso, com R$ 10,00 dá para tomar sorvete, comprar um livro em sebo, comprar leite condensado, comprar brinquedo e artesanato em feiras espalhadas por aí, dá para fazer uma fezinha na loteria, e muitas outras coisas, tudo isso com esse valor a mais que eles pleiteiam para tornar a vida menos malcheirosa no final do mês.

Mas, infelizmente, parece que vocês não conseguem imaginar isso. R$ 10,00 não cabem dentro de programas em que comida, entretenimento e lazer, por exemplo, são ordinários, ostentam outros sabores e saberes.

Revista Fórum